Um velho frasco azul

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Na hora do amanhecer que minha avó tanto amava, verifiquei o lacre no pote de vidro azul. Qual a idade desse frasco, eu não fazia ideia. Encontrei-o no pó imperturbável das prateleiras do porão, onde ela mantinha a lata. Atrás das teias de aranha, atrás das fileiras de potes cheios, outros potes, muito mais velhos que eu não poderia usar com os selos de conservas modernos, esperei um verão que não viria.

Minha avó morreu vinte anos atrás. Ninguém nunca voltou para reivindicar o enlatamento da última temporada. Muitos anos se passaram para corrigir esse desperdício.

Eu queria tocar esse velho frasco azul, para limpá-lo. O aro não era muito diferente de um jarro moderno. Pode funcionar.

Se não, eu poderia chamar de outro jarro. Os pêssegos açucarados com os quais enchi não seriam desperdiçados. Eu poderia misturá-los com a minha aveia esta manhã.

Pela primeira vez na minha vida, comecei a enlatar em casa. Eu não tinha ninguém para me mostrar. Minha avó teria, mas naqueles anos a floresta com samambaias me atraía mais do que a cozinha perfumada. Eu aprendi com um livro. Talvez se eu enchesse as prateleiras vazias da despensa de telhado inclinado sob a escada dos fundos com conservas, eu poderia trazer de volta algo de dias passados.

O selo escorregou quando toquei a jarra fria, me dizendo o que eu já sabia. Quando contei os pings dos frascos de vedação ontem, cheguei um a menos. Se houvesse uma maneira de fazer esse frasco funcionar, minha avó saberia e eu não o encontraria vazio. Eu empurrei de volta na decepção. Muitos frascos antigos com marcas de cinquenta anos atrás funcionaram.

No inverno, o ato de recuperar algo enlatado poderia trazer de volta a voz do meu avô quando ele me mandou para a neve para a porta do porão do lado de fora buscar um pote de frutas, geleia ou picles.

Talvez sobrinhas e sobrinhos visitassem este inverno. Talvez eu os envie. Minha coleção de livros de receitas brilhantemente ilustrados e elegantemente escritos não conseguiu trazer de volta o que eu havia perdido. Minha avó nunca procurou por elegância. Ela nunca conheceu o toque de um bom papel, mas entendeu o que era dormir com fome.

Às vezes, eu não ouvia quando tive a chance. Outras vezes, eu via meus avós observando o horizonte pelo que eu não sabia. Quando perguntei, eles não responderam. Talvez algumas coisas não tivessem que ser repassadas.

Há coisas que fiz, nunca direi a meus sobrinhos e sobrinhas. Eu não sou eles, nem o passado da geração, nem a geração que se aproxima, e eles não sou eu. No entanto, existe mais conexão do que eu sempre entendi.

A luz se dobra e tinge quando passa por esse velho frasco azul inútil que não consigo jogar. Nem sempre podemos ver a luz como outra pessoa veria sem ajuda, mas de vez em quando o ato de tocar em algo esquecido traz de volta um pouco do que poderia ter sido perdido.